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 As histórias de detetives os aproximaram na infância

Os dois escritores cresceram na mesma cidadezinha. A amizade que ali nasceu forjou duas obras monumentais da literatura americana: “O sol é para todos” e “A sangue frio”

Quando Truman Capote viu Harper Lee pela primeira vez, pensou que ela fosse um menino. No início do verão de 1932, Capote, um garotinho de 7 anos, havia sido abandonado pelos pais num casarão habitado pelos primos solteirões de sua mãe em Monroeville, uma cidadezinha do Alabama, no sul dos Estados Unidos. Nelle Harper Lee morava na casa ao lado. Ela era uma moleca de cabelo joãozinho e pés descalços, metida num macacão surrado. Quando ela viu aquele loirinho de voz fininha, num traje de marinheiro, sapatos brancos e cheirando a sabonete caro, pensou que ele fosse uma menina.

Naquela cidadezinha poeirenta, cresceram, lado a lado, dois dos maiores escritores americanos. A amizade floresceu para além de Monroeville, e as aventuras infantis serviram de inspiração para os livros que escreveriam no futuro. Harper, que morreu no dia 19 de fevereiro, aos 89 anos, tomou as memórias da infância compartilhada com Capote, morto em 1986, para compor O sol é para todos, um romance sobre a segregação racial narrado por uma criança. O livro se tornou um dos mais amados clássicos americanos. Scout, a menina narradora, e seu irmão Jem são versões ficcionalizadas de Harper e Capote. A fictícia Maycomb, onde se passa a história, foi inspirada em Monroeville. Outros lugares, outras vozes, o primeiro romance de Capote, conta a história de Joel, um garoto afeminado como o autor, que fazia amizade com Idabel Thompkins, uma moça masculinizada e muito parecida com Harper. A sangue frio, o romance de não ficção que o consagrou, jamais teria sido publicado sem a ajuda de Harper.

Quando Truman Capote viu Harper Lee pela primeira vez, pensou que ela fosse um menino. No início do verão de 1932, Capote, um garotinho de 7 anos, havia sido abandonado pelos pais num casarão habitado pelos primos solteirões de sua mãe em Monroeville, uma cidadezinha do Alabama, no sul dos Estados Unidos. Nelle Harper Lee morava na casa ao lado. Ela era uma moleca de cabelo joãozinho e pés descalços, metida num macacão surrado. Quando ela viu aquele loirinho de voz fininha, num traje de marinheiro, sapatos brancos e cheirando a sabonete caro, pensou que ele fosse uma menina.

Lee e CApote em 1976, em Nova Iorque. As histórias de detetives os aproximou na infância. Na maturidade, eles se distanciaram. (Foto: Harry Benson/Contour by Getty Images)

Naquela cidadezinha poeirenta, cresceram, lado a lado, dois dos maiores escritores americanos. A amizade floresceu para além de Monroeville, e as aventuras infantis serviram de inspiração para os livros que escreveriam no futuro. Harper, que morreu no dia 19 de fevereiro, aos 89 anos, tomou as memórias da infância compartilhada com Capote, morto em 1986, para compor O sol é para todos, um romance sobre a segregação racial narrado por uma criança. O livro se tornou um dos mais amados clássicos americanos. Scout, a menina narradora, e seu irmão Jem são versões ficcionalizadas de Harper e Capote. A fictícia Maycomb, onde se passa a história, foi inspirada em Monroeville. Outros lugares, outras vozes, o primeiro romance de Capote, conta a história de Joel, um garoto afeminado como o autor, que fazia amizade com Idabel Thompkins, uma moça masculinizada e muito parecida com Harper. A sangue frio, o romance de não ficção que o consagrou, jamais teria sido publicado sem a ajuda de Harper.

 

Na infância, nenhum dos dois se adequava bem a Monroeville, uma cidadezinha imersa na depressão econômica dos anos 1930. Ambos tinham mães ausentes. A de Harper sofria dos nervos, a de Capote não tinha paciência com a afetação do menino. Harper era brigona, batia nos garotos e não tinha amizades femininas. Capote desfilava com roupas extravagantes, ternos brancos e gravatas, numa comunidade pobre onde as crianças usavam roupas feitas de velhos sacos de farinha. O jeito com as palavras e o gosto pelas aventuras deSherlock Holmes os aproximaram. Eles passavam tardes inteiras lendo histórias de detetives. Um dia, o pai de Harper, o advogado que inspirou o Atticus Finch de O sol é para todos, presenteou-os com uma máquina de escrever. Eles começaram a se revezar para pôr no papel as histórias que criavam. Enquanto um ditava, o outro datilografava. E assim nasceram as primeiras tentativas literárias de dois autores monumentais.

Truman Capote aos 8 anos de idade. (Foto: Divulgação)

Capote afirmou que, na infância, ele e Harper viviam “uma angústia comum” e passavam a maior parte do tempo perdidos em devaneios e inventando histórias. Capote foi viver com a mãe em Nova York e incentivou Harper a seguir seus passos e tentar a vida como escritora na cidade grande. E ela foi. Em 1959, quando ele quis ir ao Kansas investigar o crime que deu origem a A sangue frio, lá estava Harper a seu lado. Quando Greg Neri, um escritor de livros infantojuvenis, assistiu ao filme Capote, de 2006, que conta os bastidores da confecção de A sangue frio, ficou surpreso com quão pouco se sabia sobre o tempo em que eles viveram em Monroeville. Neri decidiu que contaria essa história. Ele narra a amizade infantil dos dois escritores em Tru & Nelle, um livro a ser lançado nas próximas semanas nos Estados Unidos. “A história real deles é ainda mais divertida do que as histórias que eles escreveram”, afirma Neri. “Ambos eram crianças deslocadas, mas se sentiam confortáveis um com o outro.”

Um livro em particular ajudou Neri a reconstituir os anos de aprendizado de Capote e Harper: Truman Capote’s southern years (Os anos sulistas de Truman Capote, em português), de Marianne Moates. A autora registrou as histórias contadas por Jennings Faulk Carter (1928-2012), um primo de Capote que também viveu em Monroeville. Carter era conhecido pelo apelido de Big Boy e foi personagem coadjuvante das aventuras infantis de Capote e Harper. “Tru & Nelle é uma estranha combinação de ficção e biografia”, afirma Neri, que é bastante fiel aos fatos. “É um romance, mas todos os personagens, assim como a maioria dos eventos, são reais. Recorri à ficção para moldar todos esses incidentes maravilhosos numa narrativa.”

Harper Lee aos 8 anos de idade com Mary Badham, atriz mirim de O Sol é para todos (Foto: Everett Collection)

“A realidade é tão chata!”, exclama o pequeno Tru, o Capote ficcionalizado no livro de Neri. “Eu queria que alguma coisa acontecesse nessa cidade.” Além de ataques da Ku Klux Klan, a seita supremacista branca que também infestava a fictícia Maycomb, quase nada acontecia em Monroeville. Até que, um dia, a cidade amanheceu coberta de mistério. Na madrugada, alguém invadiu a farmácia onde Tru e Nelle costumavam ir atrás de Coca-Cola gelada. A escola que eles frequentavam também foi arrombada. Fizeram uma bagunça na sala do diretor, quebraram as vidraças e desenharam, num quadro-negro, uma serpente de olhos vermelhos. Parecia um caso para Sherlock Holmes e seu comparsa, o dr. Watson, mas os únicos detetives de Monroeville eram Tru e Nelle. Ao lado de Big Boy, que nunca entendia nada, eles gerenciavam a única agência de detetives da cidade, que funcionava numa casa na árvore. Tru era o cérebro, fazia pose de Sherlock Holmes e usava um chapéu parecido com aquele do detetive de Baker Street. Nelle era dr. Watson, os músculos.

A sangue frio é uma história de detetive como aquelas em que eles se envolviam quando eram crianças”, afirma Neri. No livro, Harper fez o grosso da reportagem e Capote escreveu o texto. Capote e Harper recorreram às habilidades detetivescas que aprenderam com Holmes e Watson para investigar o assassinato da família Clutter na poeirenta Holcomb, no Kansas. Os simplórios moradores não confiavam naquele afetado jornalista de Nova York, mas se sentiam confortáveis na presença de sua simpática assistente e, por causa dela, contavam tudo o que sabiam. “O povo daquela cidadezinha estranhava gente como Capote, mas Harper tinha jeito com as pessoas e fez amizade com todo mundo para ajudá-lo.” Os detetives de Monroeville estavam de volta à ativa. Ele, o cérebro; ela, os músculos.

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A sangue frio só foi publicado em 1966, quando Harper, antes à sombra do amigo, já era uma autora consagrada. Ela recebera o prestigioso Prêmio Pulitzer por O sol é para todos. A adaptação cinematográfica do livro ganhou Oscars de Melhor Ator (Gregory Peck) e Melhor Roteiro Adaptado. Cheio de orgulho, Capote contava a todos que o menino Jem era uma versão ficcionalizada da criança que ele foi em Monroeville. A sangue frio não alcançou, de imediato, o sucesso retumbante de O sol é para todos. Não ganhou Pulitzer e sua versão cinematográfica não levou nenhum Oscar. Os músculos haviam batido o cérebro. Capote também nunca deu a Harper o devido crédito por A sangue frio. Além de ajudá-lo nas pesquisas, ela conduziu uma rigorosa edição do livro. Mesmo com as mãos queimadas num acidente, Harper ainda fez comentários no manuscrito. O único agradecimento que recebeu foi uma dedicatória. Os dois amigos se distanciaram.

Capote insistiu na vida louca nova-iorquina e fez de tudo para se manter sob os holofotes. Harper optou por um silencioso exílio longe dos olhos do público e voltou a Monroeville, onde viveu até a morte. Os livros, que um dia aproximaram duas crianças deslocadas, afastaram os escritores. “O poder das palavras pode causar guerras ou trazer a paz. Use-as com sabedoria”, dizia a dedicatória de um antigo dicionário que o pai de Harper deu aos dois amigos que brincavam de detetive em Monroeville.

 

Fonte:http://epoca.globo.com

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